Casa Bola de Eduardo Longo volta a pulsar no Itaim com a Aberto

A esfera metálica projetada por Eduardo Longo na década de 1970 reaparece como palco de uma mostra que mistura arquitetura, arte e urbanismo.
A quinta edição da Aberto ocupa a casa, uma galeria anexa de três andares e intervenções ao ar livre na avenida Faria Lima, ampliando o diálogo entre público e cidade.
As informações e depoimentos reunidos nesta reportagem foram organizados a partir do material recebido, conforme informação divulgada pelo Neofeed.
A gênese da forma e o experimento de Longo
Na virada dos anos 1970, o escritório de Eduardo Longo gerava projetos residenciais para famílias abastadas, mas uma mudança de percurso levou o arquiteto a experimentar com volumes menos materiais e mais conceituais.
Longo recorda que fez, em suas palavras, "uma viagem ao subconsciente a partir do uso de um produto chamado Cannabis sativa, que eu utilizava para refletir sobre tudo isso", lembrança dita com tom de brincadeira.
O resultado foi a aposta em uma esfera de oito metros de diâmetro, construída com argamassa armada, que abriga quartos, cozinha, sala e até móveis projetados para superfícies curvas, incluindo, segundo ele, a geladeira.
A mostra Aberto e o núcleo dedicado a Longo
A curadoria do projeto Aberto, coordenada por Filipe Assis, transforma residências singulares em locais temporários de exposição, deslocando a arte para fora dos cubos brancos tradicionais.
Segundo a organização, "Essa vai ser a maior Aberto de todas", declaração de Assis citada no material de divulgação.
Com cerca de 90% das obras comissionadas especialmente para a exposição, a quinta edição reúne aproximadamente 60 trabalhos de 50 artistas, entre eles Sandra Cinto, Luiz Zerbini, Letícia Ramos, Iole de Freitas, Marepê e Carlito Carvalhosa, dados informados pela curadoria.
Além da Casa Bola, a mostra ocupará três andares de 180 m2 cada de uma galeria projetada por Longo, integrando um núcleo dedicado à sua produção, com desenhos, fotografias e maquetes organizados pelo curador Fernando Serapião.
A cidade como galeria e o debate sobre espaço público
O projeto discute também o espaço público, um tema que Longo pensa há décadas, ao levar obras para o canteiro central da avenida Faria Lima, entre as ruas Gabriel Monteiro da Silva e Adolfo Tabacow.
Nas palavras de Assis, "Estamos expandindo a exposição para o espaço urbano para mostrar a arte a quem não necessariamente está à procura dela ou que nem sempre tem familiaridade com o assunto, mas que pode ter contato com as obras nesse percurso", afirmação presente no material de divulgação.
Serão, segundo o projeto, quinze esculturas no trecho, uma presença pensada para dialogar com o fluxo cotidiano e com quem transita pela área, sem a mediação de museus ou galerias convencionais.
O legado estético e as transformações na prática de Longo
O arquiteto, hoje com 83 anos, descreve um período de dúvida e abandono, "Eu estava meio morto", frase dita sem rodeios em entrevista.
Longo reconhece que o projeto da esfera marcou uma virada, "Fiquei muito tempo preso ao projeto da Casa Bola, tudo muito folclórico, mas desacreditado.", e observa, com satisfação, "Aliás, a Bola nunca fez tanto sucesso como hoje."
Depois da experiência, ele passou a priorizar o racionalismo e a evitar projetos que começassem do zero, dedicando-se a reformas e a intervenções urbanas, como a passagem comercial que abriu entre as ruas Amauri e Peruíbe, um atalho que funcionou 24 horas por dia por 15 anos.
Após a Aberto, Longo pretende manter a galeria aberta para mostras temporárias, reabrir a passagem entre as ruas e continuar recebendo visitantes na Casa Bola, movimentos que ampliam a convivência entre arquitetura, arte e cidade.
Ao final, a mostra funciona como um lembrete de que a arquitetura pode ser, simultaneamente, invenção, utopia e um terreno para discutir o futuro do espaço urbano, ideias centrais à obra e à trajetória de Eduardo Longo.
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