Brasil e Rússia reforçam defesa da paz e enviam recados a Trump

Encontro Brasil e Rússia em Brasília reafirma defesa da paz
Em Brasília, autoridades do Brasil e da Rússia divulgaram um comunicado conjunto em que ressaltam a defesa da paz, apesar do conflito envolvendo a Rússia na Ucrânia.
O texto teve 49 parágrafos e foi assinado pelo vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, e pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, durante a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação.
O encontro incluiu ainda um almoço reservado entre o representante russo enviado por Vladimir Putin e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme informação divulgada pelo g1.
O que diz o comunicado
O documento, de 49 parágrafos, destaca que a atual conjuntura internacional tem sido marcada por "incerteza e instabilidade", e "reiteraram o compromisso dos dois países com a manutenção da paz e da segurança internacionais e a solução pacífica de controvérsias". O texto foi assinado por Alckmin e Mishustin, e a reunião foi a primeira desde 2022, retomada após um hiato de 10 anos.
Alckmin afirmou, ao abrir a reunião, que "Parcerias sólidas não dependem apenas da conjuntura, mas de interesses estruturais bem compreendidos", reforçando a intenção de ampliar laços econômicos, comerciais e de investimentos entre Brasil e Rússia.
Omissões e mensagens indiretas a Trump
O comunicado evita referências diretas à invasão e à tomada de territórios ucranianos, e, no texto, "não há uma única palavra no documento a respeito da invasão e tomada de territórios ucranianos pelos russos", tampouco sobre diálogos mediados pelos EUA, que seguem em curso nos Emirados Árabes Unidos.
Ao mesmo tempo, Brasil e Rússia mandaram recados indiretos a ambições do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em temas como interesses no Ártico, o envolvimento americano na Venezuela, e a proposta de um Conselho da Paz, apontando conflito com atribuições do Conselho de Segurança da ONU.
As partes afirmaram, em linguagem diplomática, preocupação com a preservação da paz no Ártico e defenderam o status da América Latina e Caribe como zona de paz, com respeito mútuo, solução pacífica de controvérsias e não intervenção.
Armas, ONU, Brics e finanças
No dia em que expirou o último acordo de controle dos arsenais nucleares entre Washington e Moscou, os países "destacaram a importância e o caráter urgente da tarefa de prevenção de corrida armamentista no espaço exterior" e reafirmaram compromisso com o Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares, TNP.
Brasil e Rússia também disseram apoiar o restabelecimento do papel central da ONU, e consideraram "imperativo avançar na reforma do Conselho de Segurança da ONU" para torná-lo mais representativo, citando a inclusão de países em desenvolvimento da América Latina, Ásia e África.
Em economia, o documento cita a coordenação entre emergentes via Brics, abordando alternativas ao dólar, troca de experiências sobre instrumentos de pagamento e a defesa de uma arquitetura financeira internacional mais representativa. O primeiro-ministro russo defendeu o uso mais intensivo de moedas nacionais, como real e rublo, no comércio bilateral.
O texto também reproduz a posição russa contra sanções, afirmando "as partes reiteraram sua rejeição ao uso de medidas coercitivas unilaterais, particularmente contra países em desenvolvimento", classificando tais medidas como ilícitas e incompatíveis com o direito internacional.
Contexto político e próximos passos
O encontro serviu ainda para apoiar a África do Sul, sócia dos Brics, em crise diplomática com os EUA, e para reafirmar a coordenação entre emergentes em temas de governança global.
Houve menção às conversas em andamento entre autoridades russas e americanas sobre controles de armamentos, e a proposta de usar ativos congelados como contribuição para a reconstrução de Gaza foi citada, sem resposta definitiva ao convite para integrar um eventual Conselho da Paz proposto pelos EUA.
O comunicado mostra a intenção de Brasil e Rússia de aprofundar laços estratégicos e econômicos, ao mesmo tempo em que buscam influir no debate internacional sobre segurança, finanças e reformas da governança global.
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