Polilaminina: por que SBPC, ABC e Anvisa pedem cautela

Pesquisadores e entidades científicas alertam para o risco de transformar uma descoberta de laboratório em promessa de cura antes da hora.
A polilaminina é uma substância em fase de testes para tratar lesões na medula, mas ainda não há prova de que funciona ou que é segura para seres humanos.
O tema ganhou grande repercussão na imprensa e nas redes, e isso levou ao uso da Justiça para tentar acesso ao tratamento, conforme informações divulgadas pela UFRJ e por entidades científicas.
Por que especialistas pedem cautela
Grupos como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências afirmam que não se pode confundir descoberta de laboratório com remédio pronto para uso.
A Academia Brasileira de Neurologia lembra que ainda não existem estudos científicos publicados que garantam que a substância ajude pacientes, e que dúvidas técnicas devem ser resolvidas entre cientistas, não em tribunais ou por meio da exposição na mídia.
Além disso, Anvisa só liberou a fase 1 dos testes, etapa destinada a avaliar se a substância não faz mal à saúde de quem a recebe, e isso não quer dizer que o tratamento cure alguém ou que já possa ser adotado em hospitais.
O que dizem os números
Um dado que circulou nas redes aumentou a esperança pública, um teste inicial com oito pacientes mostrou que seis melhoraram, porém esses resultados ainda não foram conferidos por pares.
Especialistas alertam que relatos isolados ou compartilhados na internet não substituem estudos controlados, e lembram que até 30% das pessoas com lesão recente podem recuperar movimentos sozinhas, sem nenhum remédio novo.
Sem acompanhamento rigoroso por pesquisadores independentes, não é possível afirmar eficácia, e, para a ciência, o importante agora é ter transparência em cada passo dos estudos.
Implicações legais e de patentes
A história da polilaminina também evidenciou um impasse sobre gestão de inventos e patentes no Brasil.
A pesquisadora Tatiana Sampaio diz que o país perdeu direitos da descoberta por falta de verba na UFRJ, a empresa Cristália afirma que a proteção da patente é sua e vale até 2043.
Essa disputa saiu dos laboratórios e foi parar no público, criando expectativas antes de a comunidade científica confirmar se a ideia realmente funciona, e gerando decisões judiciais que permitem aplicações fora de estudos controlados.
Riscos de tratamento fora de estudos
Cientistas temem que a aplicação da polilaminina por meio da Justiça, fora de uma pesquisa controlada, coloque em risco a segurança dos pacientes e atrapalhe a organização dos estudos no país.
Especialistas defendem maior articulação entre universidades e hospitais, para que descobertas cheguem aos pacientes com rigor, e pedem equilíbrio entre a vontade de cura de quem sofre e o rigor técnico necessário.
No momento, a orientação unânime das entidades é que a polilaminina seja usada apenas dentro de estudos oficiais, com acompanhamento ético e científico adequado, para que, no futuro, haja segurança e evidência de eficácia.
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