Inflação de serviços em 2026 vai desafiar o IPCA, diz FGV
Os preços de serviços devem permanecer pressionados ao longo de 2026, em grande parte devido ao mercado de trabalho aquecido e ao aumento da renda disponível das famílias.
Esse comportamento tende a dificultar uma queda mais rápida da inflação geral, e pode limitar a margem de manobra do Banco Central para reduzir a Selic com maior intensidade.
Ao final da introdução, confira os números e as previsões, conforme informações divulgadas pelo IBGE e pelo FGV-Ibre.
Por que os preços de serviços seguem altos
O principal motor da alta é o emprego em níveis baixos de desemprego, que aumenta a renda disponível e estimula o consumo de serviços. Matheus Dias, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, observa que a pressão vem da própria atividade econômica. Ele afirma que É uma inflação que está relacionada à atividade econômica. Se a gente for destrinchar, a gente vai ver que a alimentação fora do domicílio ficou pressionada ao longo de todo o ano, mesmo com a inflação de alimentos em desaceleração. Isso tem relação com a sofisticação do consumo devido ao aumento da renda.
A taxa de desemprego no Brasil ficou em 5,2% nos três meses até novembro, menor nível desde 2012, quando a expectativa era de 5,4%, segundo o IBGE. Esse cenário sustenta demanda por restaurantes, transporte, turismo e serviços pessoais.
Setores que devem puxar a inflação de serviços
Alguns itens já mostraram forte aceleração em 2025 e tendem a continuar com pressões em 2026. Passagem aérea subiu 7,85% no acumulado do ano, hospedagem avançou 9,61% e pacotes turísticos subiram 7,09%, segundo dados citados pela FGV-Ibre e pelo IBGE.
Transporte por aplicativo foi o destaque, com alta acumulada de 56,08% em 2025, resultado da combinação entre forte demanda, reajustes de tarifas e custos de combustíveis. Itens como aluguel acumularam alta de 6,97% e consertos e manutenção subiram 6,88% no ano, refletindo também ajustes de comportamento dos consumidores.
Impacto no IPCA e na política monetária
Mesmo com serviços em patamar elevado, a projeção da FGV-Ibre para o IPCA ao final de 2026 é de 3,9%. Parte dessa convergência gradual à meta é atribuída à desaceleração nos preços de bens, especialmente pela pressão competitiva de importações da China, que ajuda a conter os custos de determinadas mercadorias.
Matheus Dias alerta, no entanto, que Os serviços não vão ajudar a inflação a cair. Não vai ter alívio suficiente nos serviços para que a gente tenha uma convergência mais rápida para a meta, o que pode desacelerar o ritmo de cortes na taxa básica de juros.
Atualmente em 15%, a Selic deve começar a ser reduzida no primeiro trimestre de 2026, segundo projeções, e encerrar o ano entre 12,5% e 13%, mas esse calendário depende da evolução dos preços de serviços e de fatores externos.
Riscos e impulsos extras
Um fator novo em 2026 é o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda, que deve liberar renda para consumo. A partir deste ano, quem ganha até R$ 5.000 não pagará IR, e quem recebe até R$ 7.350 terá descontos escalonados. Antes, a isenção era para quem recebia até dois salários mínimos, R$ 3.036.
Estima-se que 14 milhões de pessoas sejam beneficiadas, o que pode gerar um choque de consumo em serviços como restaurantes, cabeleireiros e empregados domésticos, conforme avaliação de economistas do FGV-Ibre.
Além disso, eventos pontuais, como a Copa do Mundo, podem provocar picos temporários em bares, restaurantes e transportes por aplicativo próximo às datas dos jogos, mas a expectativa é que esse efeito seja passageiro e se dilua ao longo do ano.
Por fim, riscos geopolíticos que afetem o preço do petróleo e a volatilidade do câmbio em ano eleitoral são pontos de atenção que podem alterar o cenário projetado para os preços monitorados e para a inflação como um todo.
Fonte: IBGE, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, e FGV-Ibre, análise de Matheus Dias.
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