'Mate o conforto': como criar filhos na era da tecnologia e IA

Especialistas que participaram do Fórum Econômico Mundial, em Davos, afirmaram que o excesso de conforto e de conveniência oferecidos pela tecnologia e pela inteligência artificial precisa ser regrado na infância. Segundo a Exame, Jonathan Haidt, Becky Kennedy e Rachel Botsman alertaram que resolver tudo para crianças prejudica o desenvolvimento emocional e contribui para maiores níveis de ansiedade no futuro.
Em síntese: permitir que dispositivos e ferramentas resolvam fricções impede que crianças aprendam a lidar com frustrações, complica a formação de julgamento e altera a forma como se criam laços. O debate foi apresentado no painel "Como criar filhos em um mundo ansioso", em Davos.
Por que o conforto atrapalha o desenvolvimento
Os especialistas apontam que o chamado mimo — a prática de resolver problemas das crianças por conveniência — priva oportunidades de aprendizado emocional. Quando adultos removem obstáculos de forma sistemática, crianças perdem experiências que exercitam resolução de problemas, tolerância à frustração e julgamento.
Segurança, tolerância e aprendizado emocional
Com adultos mais ocupados e pressionados por produtividade, cresce a tendência de confiar na tecnologia para acalmar ou entreter crianças. Dispositivos que eliminam desconfortos produzem um ambiente sem fricção e reduzem as chances de as crianças experimentarem situações negativas que serviriam como treino emocional.
“Um iPhone é uma babá incrivelmente eficaz.”
Becky Kennedy descreveu a importância do que chamou de "alegria doentia": reconhecer o valor de experiências percebidas como negativas pelas crianças, porque elas ajudam a construir tolerância e competências sociais futuras. Kennedy recomenda validar sentimentos e, ao mesmo tempo, permitir o que chamou de um "mal necessário" — isto é, encorajar a criança a seguir em frente diante do desconforto.
Riscos do mundo físico e do mundo virtual
Rachel Botsman destacou uma dicotomia: ambientes fisicamente protegidos, onde adultos resolvem problemas, geram uma confiança ingênua que se traduz em maior exposição a riscos no mundo virtual. Em outras palavras, ambientes seguros demais reduzem a capacidade das crianças de julgar perigos online e de lidar com abusos ou situações adversas no meio digital.
Inteligência artificial e primeiros laços
A inteligência artificial já está presente em brinquedos e sistemas usados por crianças. Os especialistas alertam que confiar excessivamente na tecnologia para suprir necessidades emocionais pode deslocar os primeiros laços afetivos, criando dependência de máquinas.
“Não precisamos de estudos científicos para saber que se crianças estão crescendo com seus primeiros laços sendo com robôs de conversação, isso será um desastre.”
Haidt reconhece o papel da IA na educação secundária e no mercado de trabalho, mas defende que seu uso seja limitado nos primeiros anos de aprendizado, quando as relações humanas são fundamentais para formação cognitiva e emocional.
O que os pais podem considerar
- Priorizar interações humanas nas fases iniciais de desenvolvimento.
- Equilibrar validação emocional com a exposição controlada a frustrações — permitir pequenos riscos e desconfortos que ensinem resiliência.
- Evitar delegar a resolução de problemas cotidianos exclusivamente à tecnologia.
- Limitar o uso de IA em brinquedos e ferramentas para crianças pequenas, dando preferência a experiências sociais reais.
Desafio crescente
O painel em Davos deixou claro que o dilema não desaparecerá: à medida que tecnologias e IA se tornam mais integradas ao cotidiano, pais e educadores enfrentarão decisões cada vez mais frequentes sobre até que ponto permitir conforto e conveniência. Segundo a Exame, o consenso entre Haidt, Kennedy e Botsman é que regrar essas soluções é essencial para evitar uma geração com menos capacidade de lidar com a vida.
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