Por que o Camarote Nº1 precisa faturar além da Sapucaí

O Camarote Nº1, ícone do Carnaval carioca, enfrenta um cenário em que a festa na Sapucaí continua importante, porém se torna mais difícil de planejar e rentabilizar.
Alterações nas regras do desfile, a centralização de serviços pela Liga, e o fim de apoios emergenciais obrigam a dona da marca a acelerar uma estratégia de receitas ao longo do ano.
Essas mudanças e os números da operação foram detalhados pelo grupo em material interno e em entrevistas, conforme informação divulgada pelo NeoFeed.
Regras da Liesa, padronização e menos espaço para negociações
A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Liesa, vem redesenhando o jogo na Sapucaí, padronizando serviços, restringindo ativações e criando novas cobranças, e isso aperta a operação do Camarote Nº1 no momento em que o setor perde o PERSE.
Segundo o grupo, há três anos, toda a venda de ingressos do Rio Carnaval passou a ser feita por uma única tiqueteira, a Ticketmaster, com controle unificado de acessos e base de dados consolidada, o que levou a N1 a desfazer sua parceria com a Ticket360.
Além disso, serviços antes negociados diretamente pelos camarotes, como o Wi-Fi e a energia, agora são centralizados pela Liesa, com preços tabelados, e isso elimina acordos comerciais e permutas que antes reduziriam custos.
A CEO da Cross Networking, Tati Oliva, resumiu a mudança de forma direta, "Tem fornecedor que virava e falava: 'eu faço de graça em troca disso'. Eu não tenho mais essa possibilidade", o que reduz margem e flexibilidade na montagem do camarote.
Perdas financeiras e o fim do PERSE
Na prática, as novas regras mexeram na atratividade comercial do espaço. O grupo estima que, em um dos ciclos recentes, o camarote tenha deixado de faturar cerca de R$ 5 milhões em patrocínio por conta das mudanças nas regras da Sapucaí.
Hoje, segundo a própria empresa, o camarote trabalha com cerca de R$ 42 milhões de investimento para aproximadamente R$ 50 milhões de faturamento, e o grupo admite que, com o novo ambiente, o Carnaval tende a "não crescer muito".
O desafio aumenta com o fim do PERSE, o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos, criado para sustentar a retomada pós-pandemia, e cuja ausência reduz um colchão relevante de rentabilidade para eventos como o Camarote Nº1.
Estratégia de diversificação, produtos e eventos o ano todo
Por enxergar essas mudanças como estruturais, a Holding Club, dona da marca e da plataforma N1, acelerou a diversificação das receitas, com foco em manter a marca ativa durante todo o ano.
Em 2025, o Clube N1, guarda-chuva de experiências proprietárias, movimentou cerca de R$ 75 milhões em faturamento, e a projeção para 2026 é crescer 15% sobre essa base, com parte relevante desse crescimento vindo de fora do Carnaval.
Uma frente é a venda de produtos e collabs o ano inteiro, aproveitando o desejo pela marca, e a companhia já registrou casos de sucesso, como uma linha de bolsas de R$ 2,5 mil que esgotou no evento.
Outra frente é ampliar o calendário de eventos próprios, como o Arcanjos N1 no Réveillon em Barra de São Miguel, e a Torcida Nº1 nos anos de Copa, no Jockey Club em São Paulo, descrita pelo grupo como o "carnaval do meio do ano", com grande apetite de patrocinadores.
Expansão internacional, ecossistema empresarial e o digital
No eixo internacional, a N1 levou seu conceito para o Tomorrowland Brasil, com a Arena 1, área premium que retornará em 2027 e ajudou a atrair público estrangeiro para o Carnaval do Rio.
A Holding Club também usa um ecossistema de empresas criadas ao longo dos anos para gerar receita fora da Sapucaí, entre elas Banco de Eventos, Agência Samba, Cross Networking, Storymakers BR, Roda Trade, Auíri e Bossa Experience, esta última criada em 2025, focada em viagens de incentivo.
Além disso, o grupo estreia um aplicativo próprio do Camarote Nº1 neste Carnaval, um MVP que reunirá mapas, programação e conteúdos exclusivos, com a intenção de transformá-lo em um canal permanente de relacionamento, integrando benefícios de parceiros e, no futuro, receita publicitária.
Para a Holding Club, a estratégia é clara, manter o Camarote Nº1 como ícone na Sapucaí, e ao mesmo tempo, construir receitas replicáveis em qualquer mês, ampliando a previsibilidade financeira e reduzindo a dependência do desfile.
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