Crise alimentar na Venezuela, por que encher a geladeira é luxo

A população venezuelana enfrenta um novo choque econômico que torna cada vez mais difícil colocar comida na mesa, mesmo quando o país é rico em petróleo.
Compras simples do dia a dia viraram um teste de sobrevivência, com preços subindo em ritmo acelerado, e famílias cortando gastos essenciais.
Os relatos de moradores e analistas mostram que a situação piorou após mudanças políticas e sanções internacionais, conforme informação divulgada pelo The New York Times.
Por que o dólar domina as compras
A crise alimentar na Venezuela é amplificada pela forte dependência do dólar americano nas transações diárias, porque o bolívar é muito volátil.
Comerciantes compram de fornecedores em dólares, e atrelam os preços à moeda, cobrando mais quando o pagamento é em bolívar.
O texto original registra que, "o valor não oficial do dólar chegou ao dobro da taxa oficial", e essa disparidade elevou os preços locais de itens como carne, queijo e leite.
Como a renda e a inflação pressionam as famílias
Para muita gente, ganhar o mês virou desafio, em especial para quem recebe em bolívar, pois a renda, segundo economistas, "virou fumaça" com a desvalorização da moeda, disse José Guerra, economista e professor da Universidade Central da Venezuela.
Além disso, pesquisas indicam que mais de 70% das pessoas vivem na pobreza, e o economista José Guerra estima que a inflação pode chegar a 2.000% neste ano, o que corrói rapidamente o poder de compra.
Moradores descrevem compras racionadas e decisões duras, como não comprar carne, diante de preços que dobraram em poucos dias.
Vozes nas ruas, exemplos do dia a dia
“Os preços sobem todos os dias”, disse Nair Granado, de 33 anos, recepcionista de laboratório, que correu para comprar alimentos assim que recebeu seu salário de US$ 60, porque "está completamente fora de controle".
Granado afirmou ainda, "Você realmente precisa encontrar maneiras de economizar, de fazer o salário render", e que "está ficando mais difícil comprar as coisas".
Johana Paredes, que mora em Los Teques, contou que, "Nesta última semana, não conseguimos fazer nenhuma compra", e que, por isso, "não tem nem batata" em casa, lembrando, "Antes, nós éramos ricos e nem sabíamos".
O papel do petróleo e as incertezas políticas
A Venezuela ainda depende muito do petróleo, e novas sanções reduziram vendas no mercado global, fazendo com que menos dólares circulem internamente, e valorizando a moeda americana frente ao bolívar.
Enquanto planos para revitalizar a indústria petrolífera foram anunciados por autoridades externas, muitos questionam se acordos e investimentos vão se traduzir em melhoria imediata para quem passa fome.
Phil Gunson, analista sênior do International Crisis Group, afirmou que "Eles venderam tudo o que podiam, apertaram o cinto até não restar mais nenhum furo", resumo de uma população que já vinha quase sem margem de manobra.
Gunson acrescentou, referindo-se às negociações em curso, que "Só o tempo dirá" se medidas externas vão beneficiar de fato os venezuelanos, e destacou a desconfiança generalizada entre a população.
O que muda para as famílias, agora
No curto prazo, a combinação de dólar mais caro, menos oferta de petróleo e alta inflação significa menos alimento na mesa de milhões de venezuelanos.
Com salários em bolívar e preços atrelados ao dólar, famílias ajustam dietas, saltam refeições e recorrem a estratégias de sobrevivência já praticadas ao longo da crise.
A situação deixa claro que, na Venezuela, o maior desafio não é a falta de petróleo, e sim, conseguir encher a geladeira, com dignidade e regularidade.

