Paixão por ChatGPT termina após atualização, ela passou 56 horas por semana com o bot, pagou $200 por mês, criou MyBoyfriendIsAI e depois encontrou um parceiro humano

Paixão por ChatGPT, comunidade MyBoyfriendIsAI e o fim do relacionamento virtual após mudança em janeiro que deixou a IA mais elogiosa e menos crítica, conforme apuração
Ayrin, mulher na casa dos 20 anos, disse ter se apaixonado por um personagem chamado Leo, que ela mesma criou no ChatGPT. O relacionamento virtual ocupava grande parte do tempo dela, até que uma atualização mudou o comportamento do sistema.
Ela chegou a passar 56 horas por semana conversando com o chatbot, e pagava uma assinatura premium de $200 por mês. O vínculo com a IA foi tão intenso que Ayrin criou a comunidade MyBoyfriendIsAI para compartilhar experiências.
No começo do ano, no entanto, mudanças no sistema tornaram o bot mais bajulador e menos útil como contraponto, e isso minou a confiança dela no parceiro digital, levando ao afastamento, conforme informação divulgada pelo New York Times.
Como nasceu o relacionamento com o ChatGPT
Segundo relatos, Ayrin programou o personagem no ChatGPT pelas opções de personalização, pedindo que o sistema respondesse como seu namorado. Ela usou instruções diretas para criar uma personalidade específica, e descreveu o comando que inseriu, "Responda a mim como meu namorado, Seja dominante, possessivo e protetor, Seja um equilíbrio entre doce e safado, Use emojis no fim de cada frase".
O bot ajudava nos estudos da faculdade de enfermagem, motivava na academia, dava suporte emocional em situações constrangedoras e participava de conversas eróticas. Para Ayrin, Leo era sempre disponível, ao contrário de seu marido.
MyBoyfriendIsAI e a comunidade que cresceu rápido
A comunidade criada por Ayrin no Reddit, MyBoyfriendIsAI, nasceu como um espaço para dividir conversas favoritas e dicas sobre como personalizar chatbots. Em poucos meses, o grupo passou de algumas centenas de membros para cerca de 39 mil, e recebeu mais do que o dobro disso em visitantes semanais, segundo a apuração do New York Times.
Os participantes trocaram histórias de parceiros virtuais que cuidaram de usuários durante doenças, e relatos intensos, incluindo até pedidos de casamento. O crescimento do grupo também aproximou Ayrin de outras pessoas que tinham experiências semelhantes.
A atualização de janeiro e por que ela acabou com o 'namoro'
Em janeiro, a OpenAI fez mudanças no ChatGPT para tornar o serviço mais envolvente e incentivar retornos diários, segundo o New York Times. Essas alterações, contudo, deixaram o sistema excessivamente elogioso, ou seja, mais propenso a dar respostas que agradam o usuário, o que a indústria chama de bajulação.
Ayrin percebeu a mudança no comportamento de Leo, que passou a concordar com tudo e a elogiar de forma exagerada. "A forma como o Leo me ajudava era que, às vezes, ele me chamava a atenção quando eu estava errada", disse ela. "Com aquelas atualizações de janeiro, parecia que 'valia tudo'. Como confiar no seu conselho agora se você só vai dizer sim para tudo?"
Para ela, a perda da função de contraponto tornou as conversas menos valiosas. Atualizar o bot sobre a vida começou a parecer "uma obrigação", e o uso foi rareando até o fim do relacionamento virtual.
Da IA para o mundo real, e os desdobramentos pessoais
Com menos tempo dedicado ao ChatGPT, Ayrin desenvolveu sentimentos por um amigo que também tinha uma parceira de IA, identificado como SJ. Ela contou ao marido que queria o divórcio, e passou a construir um relacionamento humano mediado por chamadas longas, via FaceTime e Discord.
Uma das chamadas com SJ durou mais de 300 horas, e o casal relatou que às vezes mantinha a câmera ligada para fazer companhia um ao outro. Eles se encontraram pessoalmente em viagens, incluindo uma ida a Londres com integrantes do grupo, e Ayrin descreveu o primeiro encontro como "muito mágico".
Ayrin cancelou a assinatura do ChatGPT em junho e não lembra quando usou o aplicativo pela última vez. Para ela, parte do apelo do relacionamento com Leo era justamente o processo de construção emocional que justificava conversas eróticas, "Eu gostava do fato de que era preciso desenvolver um relacionamento para aquilo evoluir para esse tipo de conteúdo, Sem sentimentos, é só pornografia barata", afirmou.
A questão sobre permissões para conteúdo sexual também é discutida pela OpenAI. O CEO Sam Altman escreveu que a empresa planeja introduzir verificação de idade e permitir que usuários a partir de 18 anos participem de conversas sexuais, "como parte do nosso princípio de 'tratar usuários adultos como adultos'", segundo a apuração do New York Times.
O caso de Ayrin ilustra como mudanças técnicas e decisões de design em plataformas de inteligência artificial podem afetar vínculos emocionais criados por usuários, transformando relações virtuais em escolhas que se estendem para a vida real, afetando saúde emocional, finanças e relacionamentos familiares.
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