Tradings abandonam Moratória da Soja, promessas ambientais em risco

A saída das grandes tradings do pacto que proibia a compra de soja de áreas desmatadas reacende dúvidas sobre as promessas de sustentabilidade do setor.
Especialistas e ONGs apontam que o fim do acordo reduz a transparência e enfraquece mecanismos que vinham protegendo a Amazônia desde 2006.
As mudanças chegam pouco antes de prazos em que as empresas haviam prometido eliminar o desmatamento em suas cadeias de suprimento, conforme informação divulgada pela Reuters.
O que mudou com o fim da moratória
Adotada em 2006 após intensa campanha ambiental, a Moratória da Soja impedia a compra de soja de fazendas que derrubaram floresta tropical após 2008.
Recentemente, tradings globais deixaram o pacto depois que o Estado do Mato Grosso aprovou uma lei que retirou incentivos fiscais das empresas aderentes ao acordo.
Em vez de um pacto setorial, as empresas passaram a anunciar compromissos individuais, com prazos diferentes para proibir compras de áreas desmatadas, alguns permitindo aquisições de terras degradadas até 2020 ou 2025.
Consequências para florestas e cadeias de oferta
Pesquisadores afirmam que a colaboração e a troca de dados entre empresas e ONGs foram fundamentais para preservar uma área da Amazônia do tamanho da Irlanda, e que a fragmentação das regras pode reduzir esse ganho.
Grande parte da soja brasileira é usada como ração animal, e a saída do mecanismo conjunto traz incerteza sobre se a carne vendida por cadeias globais vem de animais alimentados com soja de áreas desmatadas.
A expectativa de maior proteção a outros biomas, como Cerrado e Pantanal, também fica ameaçada, já que os novos compromissos individuais não exigem o mesmo nível de transparência setorial.
Posições de empresas, ONGs e compradores
A Cofco afirmou que "uma auditoria terceirizada verificou que 99% da soja que a empresa compra no Brasil está livre de desmatamento desde 2024", e que seus controles classificam grãos comprados de áreas recentemente desmatadas como "de maior emissão".
Enquanto isso, representantes de varejo e redes de fast-food têm sido vagos sobre como irão checar a origem da soja usada em rações, embora alguns grupos tenham pedido a manutenção dos padrões da moratória.
André Lima, do Ministério do Meio Ambiente, afirmou, "A questão está na transparência e nos meios de verificação, Ou seja, não basta uma declaração," e acrescentou que compromissos com mecanismos de reporte e verificação trazem resultados positivos.
Glenn Hurowitz, da ONG Mighty Earth, disse, "Parece estranho adotar proteções mais fortes à natureza ao mesmo tempo em que se abandona um mecanismo comprovado e eficaz para salvar a Amazônia", e acrescentou, "Eles estão destruindo o próprio mecanismo que sustentou todas as suas alegações de responsabilidade ambiental."
O que esperar a seguir
Com a legislação europeia prevista para proibir importações ligadas ao desmatamento desde 2020, e com a China como grande comprador da soja brasileira, a pressão por rastreabilidade deve crescer.
Analistas dizem que a chave será a capacidade das empresas e compradores de manter sistemas de monitoramento confiáveis, com abertura e auditoria independente.
Sem esse nível de controle, o abandono da moratória pode significar um retrocesso nas ações que reduziram o desmatamento no agronegócio brasileiro nas últimas décadas.
Veja Também:
Trump não planeja demitir Jerome Powell, apesar de investigação
Brics reduzem estoques de Treasuries e desafiam confiança no dólar
Kyan contratado pelo Santos recebe camisa das mãos de Neymar, estreia no Fut7 e aproxima música e futebol alternativo com reforço de 25 anos
Evacuação médica na ISS, astronautas aterrissam no Oceano Pacífico
